Localização:
Rua Maranhão, 85
Contato:
(43) 3322-6381

Cine Teatro Ouro Verde

autor desconhecido

Autores: arq. João B. Vilanova Artigas e arq. Carlos Cascaldi
Execução: engº. Rubens Cascaldi
Data: 1952

Para aproveitar parte do terreno onde seria construído o Autolon – concessionária da Chevrolet – a Sociedade Amigos de Londrina decidiu também construir o maior e mais luxuoso cinema do interior do Brasil. Desta maneira, a venda de automóveis ficava ligada ao cinema – que era a grande diversão popular nos anos cinqüenta – e ainda servia para atrair a clientela para o Autolon.

O Cine Ouro Verde se tornou motivo de orgulho e ostentação cultural para os londrinenses, desde a sua inauguração, em 24 de dezembro de 1952.  Considerado majestoso pela imprensa da época, centralizou as atenções da comunidade artística e cultural, ao ponto dos jornais ressaltarem sua comparação com as melhores casas de exibições de Rio de Janeiro e São Paulo.

Ficou evidente que a linguagem proposta por Artigas e Cascaldi para a cidade foi recebida como uma espécie de marco da modernidade, demonstrando que Londrina estava à altura do que se construía nos grandes centros urbanos, em termos de arquitetura. O requintando cinema esmerava-se nos detalhes, como poltronas revestidas em couro, rampas atapetadas, pisos de granito e mármore carrara, cortinas de veludo italiano, gerador próprio de energia elétrica e aparelhagens de som e vídeo das mais sofisticadas.

Assim como na Casa da Criança e no Autolon, no Ouro Verde há uma invasão do edifício sobre o espaço público através da projeção do pavimento superior. Com isso, criou-se um espaço de transição entre as áreas interna e externa que se abre para o calçadão à sua frente, convidando o transeunte a adentrar o edifício.

No que tange à composição, edifício do Cine Ouro Verde não transmite a mesma sensação de leveza das demais obras da dupla Artigas e Cascaldi. No entanto, é a que melhor se insere na malha urbana e no contexto das demais edificações do seu entorno, seja pela escala, seja pelo jogo de volumes e cores empregadas, onde predominam os tons da paisagem: o amarelo, o vermelho e o verde-escuro. Sua planta é tão complexa, que suas qualidades não são exibidas de forma imediata: é necessário percorrer seus espaços internos para observar a riqueza dos detalhes e dos acabamentos.

Em 1978, com o cinema em decadência, o Ouro Verde foi adquirido pela UEL – Universidade Estadual de Londrina – com o apoio do governo Estadual e Federal. Através de uma obra de adaptação, a grande sala passou também a servir como espaço cênico e ganhou o nome de Cine Teatro Ouro Verde. Desde então, é palco das mais importantes manifestações culturais tanto de Londrina quanto de outras partes do mundo, como acontece durante o Festival Internacional de Londrina (Filo) e o Festival de Música de Londrina (FML). Desde então, a cidade passou a assistir grandes espetáculos – artistas renomados apresentavam-se no novo palco da cidade.

No início de 2000, o Cine Teatro Ouro Verde foi tombado pela Coordenadoria da Secretaria de Estado da Cultura do Paraná. Em 2002, passou por sua maior reforma até então. No entanto, a colocação de uma passarela de spots no meio da sala de espetáculos inutilizou a projeção de filmes a partir da cabine que fica na galeria, ao fundo da sala de espetáculos. Em 2003, entendendo que o cinema estava condenado, a UEL envia um relatório enumerando os problemas da reforma, inclusive reivindicando um novo projetor. Como as providências não foram tomadas, o Ouro Verde cumpre dali por diante, apenas a função de teatro.

Numa tarde de domingo, 12 de fevereiro de 2012, a notícia que deveria ser apenas um filme de ficção: o Teatro é consumido rapidamente por um incêndio, a princípio inexplicável, que provocou o desabamento de grande parte do seu imóvel. Enquanto moradores de prédios vizinhos e outros voluntários tentavam resgatar pertences do local, cada vez mais pessoas aglomeravam-se em frente ao teatro para testemunhar e documentar a tragédia, num misto de curiosidade e tristeza. Em pouquíssimos minutos, o assunto e a sensação de luto invadiram também as redes sociais. Uma notícia que nenhum londrinense gostaria de ter visto estampada em destaque no jornal de segunda-feira.

Se um edifício não tem alma, como é possível haver tristeza diante de tijolos, madeira e ferragens? E foi exatamente assim, através da desintegração da matéria, que a estreita relação de amor entre a população e o seu teatro tornou-se visível a olhos nus. Como bem manifestou o professor e arquiteto Rovenir Duarte, basta pouca sensibilidade para perceber que a alma do Ouro Verde é a soma de cada pedacinho das nossas que emprestamos a ele. Ali existem muitas camadas de história, reflexão e sentimento que fazem o edifício transcender sua simples condição de objeto inanimado. É imprescindível que este episódio jamais seja esquecido para assim tornar-se um ponto de transformação na maneira do poder público tratar nosso patrimônio histórico e cultural, com menos improvisos e mais respeito.

foto: Anderson Coelho / arquivo Folha de Londrina, 12/02/12.

 

Fonte:

ABRAMO, Maria A.; MUSILLI, Célia. Londrina puxa o fio da memória. Joinville: Letradágua, 2004.

CASTELNOU, Antonio. Arquitetura londrinense: expressões de intenção pioneira. Londrina: Atrito Art, 2002.

SUZUKI, Juliana. Artigas e Cascaldi – Arquitetura em Londrina. São Paulo: Ateliê, 2003.

www.patrimoniocultural.pr.gov.br